Todas
as pesquisas desenvolvidas nos últimos
anos sobre a aquisição
das línguas de sinais evidenciam
que essa pode ser comparada à aquisição
das línguas orais em muitos
sentidos. Normalmente, as pesquisas
envolvem a análise de produções
de crianças surdas, filhas de
pais surdos. Somente esse grupo de
crianças surdas apresenta o
input lingüístico adequado
e garantido para possíveis análises
do processo de aquisição.
Entretanto, ressalta-se que essas crianças
representam apenas de 5% a 10% das
crianças surdas (esse dado não é oficial,
mas é parcialmente confirmado
pela dificuldade quando da seleção
dos sujeitos informantes desta pesquisa
que foram em número bastante
reduzido e não representam todos
os estágios da aquisição.
Nos Estados Unidos, Lillo-Martin (1986)apresenta
esse mesmo percentual.). No Brasil,
os estudos envolvem crianças
surdas, filhas de pais surdos que usam
a Língua Brasileira de Sinais
- LIBRAS.
Várias
pesquisas sugerem que a criança
surda de nascença, com acesso
a uma língua espaço-visual
proporcionada por pais surdos, desenvolverá uma
linguagem sem qualquer deficiência.
Além disso, os dados sugerem
que os fundamentos da linguagem não
estão baseados na forma do sinal,
mas sim, na função lingüística
que a serve (Petitto, 1987; Petitto & Bellugi,
1988; Petitto & Marantette, 1991;
Bellugi & Klima, 1979, 1990; Karnopp,
1994; Quadroa, 1995).
Bellugi
et al (1990) apresentam algumas pesquisas
que contribuem para educação
de surdos e para compreensão
do desenvolvimento da linguagem.
Um
deles foi feito com crianças
surdas filhas de pais ouvintes, cujo único
meio de comunicação disponível
era o Inglês Sinalizado (sistema
artificial que usa sinais da ASL – Língua
Americana de Sinais - na ordem do Inglês,
sistema equivalente ao Português
Sinalizado no Brasil). Esse estudo
investigou o uso do espaço pela
criança. Foi verificado que
as crianças, individualmente,
transformavam os conhecimentos que
tinham do Inglês Sinalizado quando
elas sinalizavam entre si mesmas, tornando
essa sinalização mais
especializada. Essa descoberta indica
que a modalidade da língua apresenta
efeitos na forma da língua.
Outro estudo realizado com surdos adultos
que adquiriram a língua de sinais
em diferentes fases da vida, uns filhos
de pais ouvintes, outros filhos de
pais surdos apresentou resultados que
sugerem que, realmente existe um período
adequado para o aprendizado da língua.
Ou seja, a aquisição
da linguagem é muito mais eficiente
quando realizada o mais precocemente
possível.
Considerando
o estudo de Quadros (1995) com crianças
surdas filhas de pais surdos sinalizadores
da LIBRAS, pode-se sugerir que os dados
analisados na ASL em relação
a sintaxe espacial apresentam uma analogia
com os dados analisados na LIBRAS.
Diante disso, sugere-se que o processo
de aquisição desses aspectos
observados envolva aspectos universais.
Diante
das evidências, torna-se imprescindível
que as instituições relacionadas
direta ou indiretamente com surdos
busquem a garantia do acesso a língua
de sinais às crianças
surdas. Dessa forma, estará sendo
garantido o desenvolvimento da linguagem
dessa criança.
AQUISIÇÃO
DE SEGUNDA LÍNGUA: O CONTEXTO
DA PESSOA SURDA
Por Ronice Müller de Quadros - rmquadros@netmarket.com.br
Doutoranda no curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.
Pesquisa financiada pela CAPES.
A aquisição da Língua Portuguesa
pelos surdos envolve um processo de aquisição de segunda língua
(L2). Considerando os estudos sobre a aquisição de L2 observa-se
que há questões internas e questões externas que determinam
o processo. O quadro abaixo sintetiza tais possibilidades:
AQUISIÇÃO
DE L2 |
QUESTÕES
INTERNAS
|
QUESTÕES
EXTERNAS |
- Capacidade
para a linguagem
- Seqüência
natural
- Período
sensível
|
- Ambiente
- Interação:
input
- output
- feedback
- Idade
- Interesse/motivação
- Prática social
- Estratégias de aprendizagem
- Estilos de aprendizagem
- Fatores afetivos |
Pode-se
dizer que há um consenso entre
os estudos de aquisição
de L2 de que as questões internas
sejam consideradas como pressupostas.
Qualquer língua, seja ela falada,
sinalizada ou escrita, representa possíveis
manifestações da faculdade
da linguagem.
A
aquisição do português
pelos surdos também envolve
essas questões internas. Os
princípios universais indicam
que o ensino de línguas deve
oferecer a oportunidade ao aluno de
estar em contato com a língua
para desenvolvê-la de forma natural
(oferecer input ). A proposta é que
isso aconteça através
do contato intenso com a escrita do
português. Além das questões
internas, o ensino de L2 exige uma
atenção especial às
questões externas, especialmente
no caso de ensino para surdos. Sugere-se
que as áreas que devam ser enfatizadas
no processo de ensino de línguas
envolvam os aspectos relacionados ao
sistema morfológico e ao léxico
pois esses refletem as variações
das línguas. Além desses
aspectos relacionados diretamente às
línguas, cabe salientar que
as questões externas extrapolam
as análises linguísticas
no processo educacional. As questões
referidas no quadro acima como "variáveis" ilustram
tais aspectos que devem ser considerados
no processo de ensino do português
para o surdo.
BILINGÜISMO
Por Ronice Müller de Quadros - rmquadros@netmarket.com.br
Doutoranda no curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.
Pesquisa financiada pela CAPES.
O bilingüismo, num sentido escrito, é uma
proposta de ensino usada por escolas que se propõem a tornar acessível à criança
duas línguas no contexto escolar. Os estudos têm apontado para essa
proposta como sendo mais adequada para o ensino de crianças surdas tendo
em vista que considera a língua de sinais como língua natural e
parte desse pressuposto para o ensino da língua escrita. No entanto, o
reconhecimento dos surdos enquanto pessoas surdas e da sua comunidade lingüística
estão inseridos dentro de um conceito mais geral de bilingüismo.
Esse
conceito mais geral de bilingüismo é determinado
pela situação sócio-cultural
da comunidade surda como parte do processo
educacional. O fato de serem pressupostas
2 línguas no processo educacional
da pessoa surda, a Língua Brasileira
de Sinais e a Língua Portuguesa,
está inserido num processo educacional.
Bilingüismo para surdos atravessa
a fronteira lingüística
e inclui o desenvolvimento da pessoa
surda dentro da escola e fora dela
dentro de uma perspectiva sócio-antropológica.
A educação de surdos
deve ser pensada em termos educacionais
e não mais em termos de línguas.
Dentro desse contexto, o bilingüismo
está sendo apresentado como
um caminho de reflexão e análise
da educação de surdos.
marciabc@music.pucrs.br