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" IGNORAR O SURDO É COMO NEUTRALIZAR UMA PLANTA QUE ESTAVA PARA SER ÁRVORE "


AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM EM CRIANÇAS SURDAS

Por Ronice Müller de Quadros - rmquadros@netmarket.com.br
Doutoranda no curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.
Pesquisa financiada pela CAPES.

     Todas as pesquisas desenvolvidas nos últimos anos sobre a aquisição das línguas de sinais evidenciam que essa pode ser comparada à aquisição das línguas orais em muitos sentidos. Normalmente, as pesquisas envolvem a análise de produções de crianças surdas, filhas de pais surdos. Somente esse grupo de crianças surdas apresenta o input lingüístico adequado e garantido para possíveis análises do processo de aquisição. Entretanto, ressalta-se que essas crianças representam apenas de 5% a 10% das crianças surdas (esse dado não é oficial, mas é parcialmente confirmado pela dificuldade quando da seleção dos sujeitos informantes desta pesquisa que foram em número bastante reduzido e não representam todos os estágios da aquisição. Nos Estados Unidos, Lillo-Martin (1986)apresenta esse mesmo percentual.). No Brasil, os estudos envolvem crianças surdas, filhas de pais surdos que usam a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS.
     Várias pesquisas sugerem que a criança surda de nascença, com acesso a uma língua espaço-visual proporcionada por pais surdos, desenvolverá uma linguagem sem qualquer deficiência. Além disso, os dados sugerem que os fundamentos da linguagem não estão baseados na forma do sinal, mas sim, na função lingüística que a serve (Petitto, 1987; Petitto & Bellugi, 1988; Petitto & Marantette, 1991; Bellugi & Klima, 1979, 1990; Karnopp, 1994; Quadroa, 1995).
     Bellugi et al (1990) apresentam algumas pesquisas que contribuem para educação de surdos e para compreensão do desenvolvimento da linguagem.
     Um deles foi feito com crianças surdas filhas de pais ouvintes, cujo único meio de comunicação disponível era o Inglês Sinalizado (sistema artificial que usa sinais da ASL – Língua Americana de Sinais - na ordem do Inglês, sistema equivalente ao Português Sinalizado no Brasil). Esse estudo investigou o uso do espaço pela criança. Foi verificado que as crianças, individualmente, transformavam os conhecimentos que tinham do Inglês Sinalizado quando elas sinalizavam entre si mesmas, tornando essa sinalização mais especializada. Essa descoberta indica que a modalidade da língua apresenta efeitos na forma da língua. Outro estudo realizado com surdos adultos que adquiriram a língua de sinais em diferentes fases da vida, uns filhos de pais ouvintes, outros filhos de pais surdos apresentou resultados que sugerem que, realmente existe um período adequado para o aprendizado da língua. Ou seja, a aquisição da linguagem é muito mais eficiente quando realizada o mais precocemente possível.
     Considerando o estudo de Quadros (1995) com crianças surdas filhas de pais surdos sinalizadores da LIBRAS, pode-se sugerir que os dados analisados na ASL em relação a sintaxe espacial apresentam uma analogia com os dados analisados na LIBRAS. Diante disso, sugere-se que o processo de aquisição desses aspectos observados envolva aspectos universais.
     Diante das evidências, torna-se imprescindível que as instituições relacionadas direta ou indiretamente com surdos busquem a garantia do acesso a língua de sinais às crianças surdas. Dessa forma, estará sendo garantido o desenvolvimento da linguagem dessa criança.

AQUISIÇÃO DE SEGUNDA LÍNGUA: O CONTEXTO DA PESSOA SURDA
Por Ronice Müller de Quadros - rmquadros@netmarket.com.br
Doutoranda no curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.
Pesquisa financiada pela CAPES.


     A aquisição da Língua Portuguesa pelos surdos envolve um processo de aquisição de segunda língua (L2). Considerando os estudos sobre a aquisição de L2 observa-se que há questões internas e questões externas que determinam o processo. O quadro abaixo sintetiza tais possibilidades:

AQUISIÇÃO DE L2
QUESTÕES INTERNAS
QUESTÕES EXTERNAS
  - Capacidade para a linguagem
  - Seqüência natural
  - Período sensível

  - Ambiente
  - Interação: input
        - output
        - feedback
        - Idade
  - Interesse/motivação
  - Prática social
  - Estratégias de aprendizagem
  - Estilos de aprendizagem
  - Fatores afetivos
 


     Pode-se dizer que há um consenso entre os estudos de aquisição de L2 de que as questões internas sejam consideradas como pressupostas. Qualquer língua, seja ela falada, sinalizada ou escrita, representa possíveis manifestações da faculdade da linguagem.
     A aquisição do português pelos surdos também envolve essas questões internas. Os princípios universais indicam que o ensino de línguas deve oferecer a oportunidade ao aluno de estar em contato com a língua para desenvolvê-la de forma natural (oferecer input ). A proposta é que isso aconteça através do contato intenso com a escrita do português. Além das questões internas, o ensino de L2 exige uma atenção especial às questões externas, especialmente no caso de ensino para surdos. Sugere-se que as áreas que devam ser enfatizadas no processo de ensino de línguas envolvam os aspectos relacionados ao sistema morfológico e ao léxico pois esses refletem as variações das línguas. Além desses aspectos relacionados diretamente às línguas, cabe salientar que as questões externas extrapolam as análises linguísticas no processo educacional. As questões referidas no quadro acima como "variáveis" ilustram tais aspectos que devem ser considerados no processo de ensino do português para o surdo.

BILINGÜISMO
Por Ronice Müller de Quadros - rmquadros@netmarket.com.br
Doutoranda no curso de Pós-Graduação em Letras da PUCRS.
Pesquisa financiada pela CAPES.

     O bilingüismo, num sentido escrito, é uma proposta de ensino usada por escolas que se propõem a tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar. Os estudos têm apontado para essa proposta como sendo mais adequada para o ensino de crianças surdas tendo em vista que considera a língua de sinais como língua natural e parte desse pressuposto para o ensino da língua escrita. No entanto, o reconhecimento dos surdos enquanto pessoas surdas e da sua comunidade lingüística estão inseridos dentro de um conceito mais geral de bilingüismo.
     Esse conceito mais geral de bilingüismo é determinado pela situação sócio-cultural da comunidade surda como parte do processo educacional. O fato de serem pressupostas 2 línguas no processo educacional da pessoa surda, a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa, está inserido num processo educacional. Bilingüismo para surdos atravessa a fronteira lingüística e inclui o desenvolvimento da pessoa surda dentro da escola e fora dela dentro de uma perspectiva sócio-antropológica. A educação de surdos deve ser pensada em termos educacionais e não mais em termos de línguas. Dentro desse contexto, o bilingüismo está sendo apresentado como um caminho de reflexão e análise da educação de surdos.
marciabc@music.pucrs.br  

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