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" IGNORAR O SURDO É COMO NEUTRALIZAR UMA PLANTA QUE ESTAVA PARA SER ÁRVORE "

 

PEQUENA HISTÓRIA DA VANESSA...

     A história da pequena Vanessa começou quando eu e o Valério pensamos em ter um bebê. No início dava um frio na barriga, por causa da grande responsabilidade de se ter uma criança dependente de gente "grande" como nós. Ainda éramos muito novos, 22 anos cada um, mas começamos a arrumar a "casa". Pois é, em 07.12.93 tive uma manifestação de rubéola, fui ao HNSD em Itabira, atendida por uma médica que, descobri mais tarde, se chamava Vanessa, e ela me disse: - Tomara que você não esteja grávida.
     Eu ainda nem sábia o que uma doença tão simples e boba podia fazer em um feto. Fiz exames com a Dr. Marta que comprovaram a Rubéola e a Gravidez, em 12.12.93 (+ ou -). Assim descobrimos que realmente estava grávida de pouco mais de 20 dias. A médica aconselhou-nos a abortar. Muita gente dava opinião, mas a resposta tinha que ser dada por mim e pelo Valério.
     Conversamos muito, choramos, oramos e decidimos que seria feita a vontade de Deus e o que Ele decidisse nós aceitaríamos e teríamos esta criança com muito amor... Uma pessoa que muito nos apoiou, independente, do que decidíssemos, foi o Pr. Carlos. Aí saímos para comemorar a gravidez com o pastor Carlos e Eunice, e a família de Jasanias numa pizzaria da cidade, cuja pizza demorou "pracaramba".
     Tudo correu normalmente como sempre corre, poucos enjôos, Vanessa mexendo muito e o que primeiro nos comoveu foi a batida do seu coração no consultório médico: Havia alguém ali dentro de mim, que sensação maravilhosa... Maravilhoso também foi vê-la no ultra-som, lindo!
     Mas no dia 07.08.94 de madrugada algo estava um pouco estranho: eram as primeiras contrações. Mexe daqui e dali, incomoda todo mundo e chamamos a Dr. Lia para me atender no HNSD. ÀS 08 da noite Ela nasceu. Estavam presentes no hospital: Papai Léo, Vó Nilde, Vó Amélia, Maria e Daniel. Todos emocionados me ajudaram muito... Com 5 dias de vida ela teve icterícia e teve que voltar ao hospital, e ficamos lá nós três juntos por 4 dias. Claro que acompanhados de toda a família, que muito nos apoiou, levando coisas daqui, dali, visitando: amigos, Ti Gê, carregando a oficina nas costas, até a Tia Wânia passou a noite no hospital...
     No dia 15 de agosto caiu o seu cordão umbilical e no dia seguinte nos saímos de lá. Dia 22.08 viajamos para BH para fazer exames por causa da rubéola e descobrimos que um olhinho (o esquerdo) era menor que o outro. Começou uma série de cuidados, o oftalmologista passou colírios, um remédio fortíssimo, para combater a infecção interna do olho, exames,... idas à BH todo mês...
     Em novembro fizemos o culto do bebê de Vanessa, com muita ajuda da Hideíde e Hidenilde, dia 19. Em 18 de dezembro foi o batizado, celebrado pelo pastor Geuzeli, foram padrinhos o pastor Carlos e a Hideíde. Inclusive no dia do batismo ela chorou muito porque estava cansada da viagem que fizemos de BH para Itabira. Em Janeiro de 1995 fizemos o exame de BERA e ficou constatado que Vanessa possuía “disacusia neurosensorial profunda bilateral”: Ela não podia ouvir, algo que já desconfiávamos, mas não queríamos aceitar. Foi difícil mas Deus nos ajuda a superar e a confiar nele.
     Em fevereiro procuramos uma fono e ela nos orientou a Fisioterapia, para ajudar no controle de pescoço da Vanessa. Fomos atrás do Alexandre. Em abril providenciamos o Aparelho Auditivo da Siemens. Muito caro por sinal, mas a Fasbemge cobriu 50% do valor e tivemos, além do empréstimo bancário, a contribuição do Tio Aylton e da Tia Naná, e somos muito gratos por isso.
     Alexandre cuidou muito bem da Vanessa, mas ela chorava muito. Além do controle do pescoço ela era hipotônica, e foi preciso trabalhar também o "rolar, sentar, engatinhar, até o andar". Começamos, também, com a ajuda da Mágda, a Terapia Ocupacional, orientados pelo maridão. A vó Nilde, quando levava a Vanessa e ficava esperando, quase tirava ela de lá, na marra, de tanta dó... Com cerca de 08 meses Vanessa sentou sozinha, com 01 ano ela engatinhou e com 01 ano e 08 meses ela andou. Que vitória dada por Deus!
     Em 22.05.95 Vanessa foi internada para operação de PCA (Persistência do Canal Arterial) no Biocor. Dói lembrar dos exames de sangue que foram feitos, o não achar a veia. Ela era tão pequenina, tão fofinha e frágil com 09 meses. A cirurgia foi no dia 24.05.95 de 08 às 11:30 hs. Ela ficou no CETIPE e mamãe doou sangue para o hospital, contamos também com as doações do Pastor Sérgio, Pastor Edésio, Tião e 2 amigos seus , e também o tio Samuel doou... Um dia depois ela foi para o quarto, mas gemia muito de dor. Queríamos mesmo é estar no lugar dela... Nestes dias foram visitar: Tia Vera, Wânia, Samuel, Giovani, Tião, Wagner... Nestas horas as visitas são muito importantes, não sabíamos o quanto, até precisar, valeu!
     Nesta época ela tinha 9 meses, 7,5 kg e cerca de 70 cm, acabou perdendo um pouquinho de peso, mas ela se recuperou logo!
     Em julho Vanessa foi operada de Catarata. Tudo correu bem tranqüilo, e a cirurgia foi simples com a ajuda de Deus.
     Em agosto começamos com a Fono, assim que ela ficou melhor. Comemoramos seu primeiro aniversário e foi uma grande festa no terraço da vó Nilde... Bolo de borboleta decorado pela Wânia, enfeites feitos pela Mágda, irmã da tia Beth, no motivo moranguinho. Tia Beth e tio Israel deram a roupinha de moranguinho... Muitos balões, foi preciso mutirão para enchê-los... A vó Amélia e o vô Gercino vieram para a festa também. Toda a família comemorou conosco, foi uma delícia em todos os sentidos...
     Vanessa foi amamentada com leite materno até cerca de 1 ano e 2 ou 3 meses, parou por que quis. Estava satisfeita e com pouco tempo para perder com a mamãe, que nesta época já trabalhava até demais no Bemge.
     Resumindo um pouco: clinicamente, Vanessa estava bem, apesar do baixo peso (normal), e de algumas infecções no ouvido e na garganta. Muito alegre e trazendo alegria a todos. A vovó Nilde corujando até demais, vô Gê, sem saber o que fazer com ela de alegria. O vô Gercino e a Vó Amélia não viam a hora de a Vanessa ir passear na roça e andar atrás das vacas.
...
     Em março/abril/97 Vanessa foi submetida ao implante de lente intra-ocular. Tudo bem. Em julho/97 nos mudamos para Pedro Leopoldo para a missão Metodista.
     Continuou com fono e TO, só mudou o modo de ver: A Fono Ana Maria nos ensinou, orientou, e gostamos do novo modo de pensar: Língua de Sinais e oralização, os dois juntos.
     Em outubro/97 engravidamos, Eu, Valério, e Vanessa: pois esperamos juntos, um novo membro da nossa família que deverá vir ao mundo no final de junho/98. Vanessa acha bem grande a minha barriga, mas acha a dela também grande, será que tem neném na barriga dela também? Que será que ela pensa?
     Dia 16.02.98 fizemos o primeiro ultra-som do bebê e ele ou ela realmente está lá. O nome não sabemos, mas provavelmente os padrinhos, Magui e Xandy, deverão ajudar nisso. Neste mês a Vanessa começou a estudar na APAE de PL. Está gostando muito, principalmente das aulas na piscina de lá.
     Hoje é dia 19.02.98 e estou escrevendo tudo isso para um dia a minha querida Vanessa ler e ficar orgulhosa dela mesma e do Senhor Jesus que a tudo conduziu da melhor forma possível, permitindo-nos a amar nossa pequenina, e começar nossa vida de adultos por meio dela, pois crescemos muito. Junto a ela e a cada dia vemos mais a benção de Deus sobre nossas vidas e sobre a Vida da Vanessa que é muito inteligente e esperta, ela aprende muito, faz muita bagunça e acima de tudo é por DEMAIS amada por nós: pelos tios, pelos avós, pelos sobrinhos, pelos amigos, pelos vizinhos, pelos irmãos em Cristo que oram sempre por ela.
     Esta história não vai acabar, vai continuar assim que eu tiver força para escrever mais, por que um nó na garganta atrapalha um pouco o dedo de escrever. Tchau.
     OBS.: Comecei a escrever em um dia de junho de 1997, voltei hoje, fev/98, quando adquirimos este “386” dias usados, mas abençoado por Deus a partir do dia 17. Um motivo também para ter tempo para digitar é que a minha queridinha Nessa foi passear em Itabira com a Tia Renice e a vó Amélia, que estava aqui se recuperando da cirurgia de catarata. Vanessa hoje estava muito alegre e amável, mas rabiscou meu chão só para chamar a atenção.
...
     Continuando a história, hoje é dia 14/11/98, Vanessa está novamente em Itabira, na casa da vó Nilde aprontando bastante, e como sobrou um tempinho depois do culto, vou contar resumidamente o que aconteceu depois de fevereiro.
     Vanessa continuou muito bem, mas teve muita infecção do ouvido e garganta, tomando muito antibiótico, aí decidimos procurar um Otorrinolaringologista, e no Núcleo encontramos o Dr. Fabrício que muito ajudou. Fez exames de sangue, e em Junho nos orientou a procurar um alergologista, que em agosto, descobriu que a sinusite e outras coisas poderiam ser provocadas por alergia a Leite de Vaca, há 4 anos tomando... Paramos com o leite e começamos a usar leite de soja na mamadeira. É muito interessante contar algumas coisas que não contei antes: Vanessa começou a controlar sua urina com 2 anos e meio, e até hoje a levamos para fazer xixi dormindo... e dá certo. Ela toma mamadeira até hoje, porque se alimenta mal. Depois que o neném nasceu ela aprendeu mesmo a dormir sozinha e está muito linda, e nos surpreende sempre com seu carinho e inteligência. Quase não usa o aparelho de audição, mas balbucia muitas coisas.
Agora vou contar do irmãozinho da Vanessa:
      Foi uma gravidez muito tranqüila, o bebê cresceu bem. A mamãe não engordou demais e o papai também não. O nome foi difícil decidir, mas ficou: RAFAEL. Que quer dizer: Deus Cura. Ele nasceu dia 20.06.98 e Vanessa foi com a Vó Nilde para Itabira. O parto foi normal, no Hospital Felício Rocho (BH), com Dra. Anita. Nasceu com 3,450 Kg, 51 cm. Seus padrinhos serão a Mágda e Alexandre. Engordou bastante, hoje está com 8,500 Kg, e muito lindinho, ri todo, mexe bastante, segura forte, lindeza...
     É legal ver o relacionamento da Vanessa com ele: Hora bate, hora empurra, hora beija! Estou cansada, vou dormir e outro dia conto mais, tá? Bye bye.
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     Demorei muito a voltar ao texto, muita coisa aconteceu, hoje é dia 20.07.00. Estamos muito sem tempo. Trabalho, crianças, trabalhos, crianças... A Vanessa está linda e o Rafael também.
     Em 1999 iniciamos a Vanessa na Feneis. Ela ia 03 vezes p/semana. O Valério a levava, era muito cansativo, pois o curso era de 08 às 11h e algumas vezes ele ainda voltava para a igreja no Alípio de Melo. O curso da Feneis foi muito bom. Tinha acompanhamento da Fonoaudióloga Ana Maria Portugal, nossa amiga, aulas de Libras com o Amauri (surdo com ótima leitura labial e fala), aulas de arte, entre outras. Vanessa participava sempre, em conjunto, com outras crianças da mesma faixa etária. O Valério também como pai, fazia aulas de Libras, uma vez por semana com a Rita (também surda com ótima leitura e fala), eu também fiz Libras com a Rita no primeiro semestre, mas era no Sábado e com o cansaço da semana não consegui terminar. Aprendo muito com o Valério.
     No segundo semestre além da Feneis, Vanessa começou a freqüentar uma escolinha aqui em Pedro Leopoldo. Mais para se socializar e brincar com outras crianças, ela gostava demais da escolinha. A professora era muito boa e conhecia sinais.
     A saúde da Vanessa melhorou bem, apesar de não engordar de jeito nenhum. Em novembro/00 tanto ela quanto o Rafael sofreram de catapora, algumas gripes, e só.
     O Rafael em 99 continuou lindíssimo! Bem gordinho e risonho! Cresceu muito, amamentado no peito e ainda comia muito bem. Gosta de tudo que se pode comer... Seus dentinhos começaram a nascer + ou - com 7 meses. Uma semana depois que fez um aninho, ele começou a andar. Depois que ele começou a andar e brincar melhor o relacionamento dele com a Vanessa melhorou muito. Quase 100%. Ainda ganhava e ganha alguns "tapas e tropeços" da irmã, mas começou a revidar e a provocar... Mas os beijos e brincadeiras juntos ficaram mais freqüentes. É maravilhoso vê-los se dando bem e imaginar o futuro que lhes reserva: um ajudando o outro. Um amando cada dia mais o outro... Como amo meus irmãos e cunhados. Como amamos a Família.
     Família é muito importante cultivar este hábito que se tornou pouco usado nas grandes cidades, família é um alicerce. Se temos uma bem formada, com amor, com Deus no centro, temos uma casa sólida, um refúgio na dor, e muita alegria para compartilhar.
     Bem, é isso que quero para os dois, estarem sempre unidos, e unidos com toda a família, mesmo na distância física, estar perto quando necessário, saber do que se passa... por aí.
     O Aniversário do Rafael foi só com um bolinho e alguns vizinhos, não deu para fazer festa. O da Vanessa também não, mas a vó Nilde veio, o Wagner e Família e Cantamos Parabéns. Sempre fomos pelo menos uma vez por mês em Itabira, apesar de estarmos sem carro.
     Em 2000, algumas coisas voltaram a mudar. O Valério decidiu investir na educação da Vanessa, com muito pesar não tentou voltar ao pastorado, a igreja não iria continuar o trabalho em PL por motivos financeiros, não daria para continuarmos sozinhos no trabalho, muita coisa aconteceu e ele decidiu não lutar, pois não daria para conciliar os dois. A educação dos nossos filhos era e ainda é nossa prioridade: Família. Deus está em primeiro lugar e sabemos que ele nos apóia, pelo cuidado que tem tido conosco. E consegui uma promoção no Itaú, financeiramente, não foi grande, mas profissionalmente, foi muito boa. Assim o Valério ficou por conta de levar a Vanessa em BH, agora são todos os dias, pois ela com 5 anos e meio precisa de escola normal, fase de alfabetização. Então desde fev/00 a matriculamos na Escola Estadual Francisco de Sales, especializada em surdos. Não é uma escola totalmente na filosofia oralista, graças a Deus, permitem os sinais, e está muito bom. A Ana Maria começou a trabalhar lá e para nós é mais um dos cuidados do nosso Pai. A Ana está atualmente atendendo a Vanessa também no consultório com um preço muito amigável. A Mágda também está ajudando muito, atendendo a Vanessa há uns 02 meses em seu consultório também (TO).
     Hoje a Vanessa está querendo saber nome de tudo! Nome em letras/Libras, ela já aprendeu todas e sabe de cor: Vanessa, Valério, Regina, e no fim de semana, aprendeu “Loro” (maritaca do vô, ela é apaixonada pela pobrezinha, que há uns meses atrás perdeu até as penas!). Está se comunicando muito bem, está mais feliz por conseguir dizer o que quer, o que pensa, sei que ainda falta muito para ela e para nós aprendermos, mas o começo está nos empurrando para frente. Sabemos que a língua de sinais é o melhor caminho para ela. Até a família quer aprender: Nesta semana de 17 a 22.07 está acontecendo um curso de libras na Igreja Batista Central em Itabira e lá estão: Valério, Vó Nilde, Vô Gê, Tia Wânia, Tia Naná, Aline e Andreia.
     Dia 24.06 comemoramos o segundo aniversário do Rafael, que foi no dia 20: foi um mutirão de ajuda. Todos ajudaram e nunca vou me esquecer. A dindinha Mágda fez docinhos, o dindinho Xande, encheu os balões quase que sozinho. A vó fez o bolo, canjica, caldo de feijão, entre outras coisas. A tia Wânia decorou o bolo em conjunto com a tia Vera, que até pintou bonequinhos, ficou lindo! Não dá para enumerar o quanto fizeram e o quanto gastaram para o aniversário, só dá para agradecer. Na festa foram muitas pessoas, principalmente da família, tios, tias, primos... inclusive a vó e o vô vieram de Santa Maria, com ajuda do tio Israel.
Bem, outro dia agente continua. Bye bye.
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     Ainda não houve tempo para escrever mais, porém, hoje, 2007, nossa família já tem mais um membro, é a Raíssa, e como o Rafael aprendeu a língua de Sinais, ela também já vem balançando as mãoszinhas para tentar se expressar com a Vanessa que hoje tem 12 anos, uma adolescente viva e linda.

     Hoje, a Vanessa estuda numa escola regular, só ela de surda, mas todos, professores e alunos, estão aprendendo LIBRAS com ela e em pesquisas, para se comunicarem. Ela ainda não faz leitura labial, está aprendendo, mas fala demais, quer com as mãos ou com a boca. Eu como pai, observei que ao darmos a atenção que ela necessitava como pessoa Surda, na sua língua, a levou a se despertar para aprender a língua do outro, no caso a oral (português falado). Veja as frases que motivam a lutar, nos ditos de Terje Basilier: "Quando eu aceito a língua de alguém eu aceitei a pessoa...".

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