|
TEXTOS
QUE AJUDAM A LUTAR!
"Se
não tivéssemos
voz nem língua, mas apesar
disso desejássemos manifestar
coisas uns para os outros, não
deveríamos, como as pessoas
que hoje são surdas*,
nos empenharmos em indicar o
significado pelas mãos,
cabeça e outras partes
do corpo?"
(Sócrates,
no Crálito de Platão)
*Originalmente
o texto refere-se aos surdos
como mudos. Tomei
a liberdade de atualizar o vocabulário,
pois este caiu em desuso.
"Uma
mudança na linguagem pode
transformar nossa avaliação
do cosmo."
"Não
há opção,
porque a questão configura-se
nos seguintes termos: A linguagem
se aprende, mas não pode
ser ensinada."
(Carlos
Sánchez)
Natasha
Kriladov, nos escreve um poema
sobre sua vitória contra
a
escuridão e o isolamento através do poder da linguagem
das mãos:
"Me
dá a mão que direi
quem és. Na minha escuridão
e silêncio entendo tudo
que terias escondido de mim.
Tuas mãos, mais que as
palavras, me falam tudo o que
não dizes: a angústia
ou raiva trêmula, amizade
ou mentira. Sinto tudo pelo toque
de uma mão estranha e
amiga. Vejo tudo na minha escuridão
e silêncio. Me dá a
mão que direi quem és."
(Extraído do filme: "As Borboletas de Zargorsk"[Os
Transformados])
Natasha
Kriladov, surda-cega, casada
com Yuri(ouvinte), mãe,
ucraniana, formada em filosofia
e psicologia. Estudou na escola
para educandos com necessidades
especiais de Zargorsk (na antiga
URSS). Hoje trabalha como psicóloga
infantil em zargorsk, além
de ensinar inglês na mesma
escola.
Trechos
do livro "O Vôo
da Gaivota" Emmanuelle
Laborrit - Atriz surda:
"Recuso-me
a ser considerada excepcional,
deficiente. Não sou. Sou
surda. Para mim, a língua
de sinais corresponde à minha
voz, meus olhos são meus
ouvidos. Sinceramente nada me
falta. É a sociedade que
me torna excepcional..."
"A
gaivota cresceu e voa com suas
próprias asas. Olho do
mesmo modo com que poderia escutar.
Meus olhos são meus ouvidos.
Escrevo do mesmo modo que me
exprimo por sinais. Minhas mãos
são bilíngües.
Ofereço-lhes minha diferença.
Meu coração não é surdo
a nada neste duplo mundo..."
"Sabia
que gritava, mas os gritos nada
significavam para minha mãe
ou meu pai. Eram, diziam eles,
gritos agudos de pássaro
do mar, como uma gaivota planando
sobre o oceano. Então,
apelidaram-me de gaivota." "Mamãe
dizia 'ontem'... e eu não
entendia onde estava ontem, o
que era ontem. Amanhã também.
E não podia perguntar-lhe.
Sentia-me impotente. Não
tinha consciência do tempo
que passava. Havia luz do dia,
a escuridão da noite,
mais nada. Tenho minha imaginação,
e ela tem seus barulhos em imagens.
Imagino sons em cores. Meu silêncio
tem, para mim, cores. Nunca é preto
ou branco."
Sobre
a importância do contato
da criança surda com
o surdo adulto e o acesso
precoce a Língua
de Sinais, Emmanuelle Laborrit,
diz:
"Imagine
que você tenha um
gatinho a quem nunca foi
mostrado um gato adulto.
Ele vai tomar-se por um
gatinho eternamente. Imagine
que esse gatinho viva apenas
com cães, ele acreditará que é o único
gato existente. Ele vai
se esgotar na tentativa
de se comunicar na língua
dos cães. Consiguirá transmitir
algumas mímicas
para os cães: comer,
beber, medo e ternura,
submissão ou agressividade;
mas será muito mais
feliz e equilibrado com
todos os seus. Crianças
e adultos, falando a língua
dos gatos."
No
ano de 1198 o Papa Inocêncio
III autorizou o
matrimônio de uma pessoa surda, argumentando que:
"Ela não pode
falar, mas em sinais pode se
manifestar".
"Quando
eu aceito a língua de
outra pessoa eu aceitei a pessoa...
Quando eu rejeito a língua, eu rejeitei a pessoa porque
a língua é parte de nós mesmos...
Quando eu aceito a Língua de Sinais, eu aceito o Surdo,
e é importante ter sempre em mente que o Surdo tem o
direito de ser Surdo."
(Terje
Basilier)
|