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" IGNORAR O SURDO É COMO NEUTRALIZAR UMA PLANTA QUE ESTAVA PARA SER ÁRVORE "


RELATO DE VIVÊNCIA
Por: Ana Maria Portugal Gomes
E através da palavra, Deus criou o surdo e Soprou em suas narinas...
     Quando ela nasceu, era capaz de dormir horas e horas tranqüilamente, sem que qualquer barulho a despertasse. Ela sorria quando via a mãe e sentia-se completamente só, quando esta se afastava de seu olhar. Acostumou-se a não mais chorar por isso.
     Enquanto sua irmãzinha tagarelava sem parar, ela começava a balbuciar. Era um balbucio triste...
     A menina ia crescendo em estatura e graça. Como era esperta! É verdade que tornara-se nervosa, agitada, e às vezes, até agressiva. Não conseguia comunicar seus desejos sem dificuldade. As pessoas esforçavam-se, mas, ainda assim, não a compreendiam.

Certa vez, sua avó percebeu que a menina não atendia aos chamados dela. Perguntou à mãe da menina, se ela não achava que a pequerrucha atrasava-se para começar a falar. Meio assustada, sua mãe acabou levando-a ao médico: "Isso é normal! Tem criança que demora mesmo a falar: é mais preguiçosa. Aguarde até os quatro anos." - disse ele. A mãe sorriu aliviada, pois certamente temia o pior.

O tempo foi passando, um tempo de espera angustiada, e a menina foi descobrindo que as coisas produziam sons. Começou a perceber sons fortes: o barulho de um avião em vôo rasante sobrevoando sua casa, os fogos de artifício no Ano Novo, o barulho do motor de carro ligado. Além disso, adorava quando seus tios ligavam a vitrola. Acabara de descobrir que o som produzia vibrações. Mesmo assim, ainda não falava, enquanto que sua irmã Ana vivia a contar casos, interagir, fazer amigos e se tornar a gracinha da família. Parecia que Ana falava pelas duas.

A espera prosseguia. Tinha-se a impressão de que um perigo iminente estava à espreita. Expirou o tempo determinado pelo médico. Sua mãe, preocupada, levou-a novamente ao médico, que por sua vez, encaminhou-a para fazer uma audiometria. "Áudio, o quê?" indagou a mãe. Após o exame, veio a constatação: a menina era portadora de surdez neuro-sensorial profunda, sem reversão clínica e/ou cirúrgica.

A decepção, a tristeza e a frustração foram companheiras dessa família. O medo do futuro, a insegurança e a ansiedade eram nítidos. O que fazer com uma menina que não ouvia? E pior, não falava? Como dizer-lhe o que era permitido e o que era proibido? Como dizer-lhe que ficava linda no vestido cor-de-rosa, rodado e cheio de babados? Como dizer-lhe o quanto era amada? A família sentiu-se impotente.

Aos quatro anos, a menina surda ingressou no Jardim de Infância de uma escola regular, juntamente com Ana. A professora era muito boazinha e carinhosa. Na rodinha, a menina nada falava. Por vezes emitia sons desconexos e desarticulados numa tentativa frustrada de participar. Os colegas riam. Ana pensava que ela teria muitas coisas para contar. Ela tinha certeza que a menina via e percebia o mundo, mesmo que às vezes sua interpretação fosse ambígua, confusa ou deturpada.

Muitas vezes, a menina percebia que caçoavam dela, apenas não entendia por quê. Ana, que bem ouvia, escutava chamarem-na de "mudinha", "surdinha", e "doente".

Quando Ana foi para a Classe de Alfabetização, a menina a acompanhou na mudança de escola regular. As escolas especiais, naquela época, eram poucas, distantes demais e muito disputadas. Na escola, chorava muito. Mais uma vez, sentia-se sozinha. A sua classe era composta de portadores de necessidades especiais diversas. Era uma verdadeira "Torre de Babel". Iniciou-se de vez sua "via crucis": a metodologia de ensino confundia-se com processos de reabilitação de fala. Ela já sabia, há muito tempo, que a cor azul era azul, mas era incapaz de nomeá-la. Estava selado o seu destino. Afinal, "No princípio era a palavra, e a palavra estava com Deus, e a palavra era Deus, e através dela todas as coisas foram criadas". Ela não sabia fazer uso da palavra. Teria que aprender a falar. Quanto tempo isso levaria?

Em casa já haviam estabelecido uma forma de se comunicar, que apesar de ainda precária, a família e a menina eram felizes em suas tentativas: além do que, era confortável para a menina, já que podia participar da vida familiar. Usavam os chamados "gestos domésticos" não convencionados na comunidade surda. Esse procedimento foi terminantemente proibido pela escola; diziam que o emprego de gestos a impediria de falar, que se acomodaria, já que os gestos são "mais fáceis".

Durante esse tempo de conflitos, sua irmã já sabia ler e escrever, desenvolvia cada vez mais o raciocínio, a compreensão e linguagem.

Ao final de seu percurso acadêmico, o que temos? A menina que nasceu surda aprendeu a falar e a ler palavras que contamos nos dedos, enquanto sua irmã detinha um domínio semântico, sintático e pragmático da Língua. A menina surda conhecia palavras como avião, mas desconhecia palavras como aeroplano ou aeronave. Tinha uma letra linda! Possuía uma capacidade de cópia incrível! Aos dezoito anos, foi desligada da escola, que por último era especial, em função de sua avançada idade.

E eu, sua irmã que a percebia como uma pessoa inteligente, pergunto-me: Será que enganei-me? Se não o que foi feito de sua inteligência ?

Por Ana Maria Portugal Gomes, 31 anos (Fonoaudióloga). Tem uma irmã de 30 anos portadora de surdez.

21/10/1997

P.S.: Relato apresentado na Semana da Pessoa Portadora de Deficiência, em agosto de 1996, na APAE de Pára de Minas (MG)

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