A
menina ia crescendo em estatura
e graça. Como era
esperta! É verdade
que tornara-se nervosa,
agitada, e às vezes, até agressiva.
Não
conseguia comunicar seus desejos
sem dificuldade. As pessoas
esforçavam-se, mas,
ainda assim, não a
compreendiam.
Certa
vez, sua avó percebeu
que a menina não atendia
aos chamados dela. Perguntou à mãe
da menina, se ela não
achava que a pequerrucha
atrasava-se para começar
a falar. Meio assustada,
sua mãe acabou levando-a
ao médico: "Isso é normal!
Tem criança que demora
mesmo a falar: é mais
preguiçosa. Aguarde
até os quatro anos." -
disse ele. A mãe sorriu
aliviada, pois certamente
temia o pior.
O
tempo foi passando, um tempo
de espera angustiada, e a
menina foi descobrindo que
as coisas produziam sons.
Começou a perceber
sons fortes: o barulho de
um avião em vôo
rasante sobrevoando sua casa,
os fogos de artifício
no Ano Novo, o barulho do
motor de carro ligado. Além
disso, adorava quando seus
tios ligavam a vitrola. Acabara
de descobrir que o som produzia
vibrações.
Mesmo assim, ainda não
falava, enquanto que sua
irmã Ana vivia a contar
casos, interagir, fazer amigos
e se tornar a gracinha da
família. Parecia que
Ana falava pelas duas.
A
espera prosseguia. Tinha-se
a impressão de que
um perigo iminente estava à espreita.
Expirou o tempo determinado
pelo médico. Sua mãe,
preocupada, levou-a novamente
ao médico, que por
sua vez, encaminhou-a para
fazer uma audiometria. "Áudio,
o quê?" indagou
a mãe. Após
o exame, veio a constatação:
a menina era portadora de
surdez neuro-sensorial profunda,
sem reversão clínica
e/ou cirúrgica.
A
decepção, a
tristeza e a frustração
foram companheiras dessa
família. O medo do
futuro, a insegurança
e a ansiedade eram nítidos.
O que fazer com uma menina
que não ouvia? E pior,
não falava? Como dizer-lhe
o que era permitido e o que
era proibido? Como dizer-lhe
que ficava linda no vestido
cor-de-rosa, rodado e cheio
de babados? Como dizer-lhe
o quanto era amada? A família
sentiu-se impotente.
Aos
quatro anos, a menina surda
ingressou no Jardim de Infância
de uma escola regular, juntamente
com Ana. A professora era
muito boazinha e carinhosa.
Na rodinha, a menina nada
falava. Por vezes emitia
sons desconexos e desarticulados
numa tentativa frustrada
de participar. Os colegas
riam. Ana pensava que ela
teria muitas coisas para
contar. Ela tinha certeza
que a menina via e percebia
o mundo, mesmo que às
vezes sua interpretação
fosse ambígua, confusa
ou deturpada.
Muitas
vezes, a menina percebia
que caçoavam dela,
apenas não entendia
por quê. Ana, que bem
ouvia, escutava chamarem-na
de "mudinha", "surdinha",
e "doente".
Quando
Ana foi para a Classe de
Alfabetização,
a menina a acompanhou na
mudança de escola
regular. As escolas especiais,
naquela época, eram
poucas, distantes demais
e muito disputadas. Na escola,
chorava muito. Mais uma vez,
sentia-se sozinha. A sua
classe era composta de portadores
de necessidades especiais
diversas. Era uma verdadeira "Torre
de Babel". Iniciou-se
de vez sua "via crucis":
a metodologia de ensino confundia-se
com processos de reabilitação
de fala. Ela já sabia,
há muito tempo, que
a cor azul era azul, mas
era incapaz de nomeá-la.
Estava selado o seu destino.
Afinal, "No princípio
era a palavra, e a palavra
estava com Deus, e a palavra
era Deus, e através
dela todas as coisas foram
criadas". Ela não
sabia fazer uso da palavra.
Teria que aprender a falar.
Quanto tempo isso levaria?
Em
casa já haviam estabelecido
uma forma de se comunicar,
que apesar de ainda precária,
a família e a menina
eram felizes em suas tentativas:
além do que, era confortável
para a menina, já que
podia participar da vida
familiar. Usavam os chamados "gestos
domésticos" não
convencionados na comunidade
surda. Esse procedimento
foi terminantemente proibido
pela escola; diziam que o
emprego de gestos a impediria
de falar, que se acomodaria,
já que os gestos são "mais
fáceis".
Durante
esse tempo de conflitos,
sua irmã já sabia
ler e escrever, desenvolvia
cada vez mais o raciocínio,
a compreensão e linguagem.
Ao
final de seu percurso acadêmico,
o que temos? A menina que
nasceu surda aprendeu a falar
e a ler palavras que contamos
nos dedos, enquanto sua irmã detinha
um domínio semântico,
sintático e pragmático
da Língua. A menina
surda conhecia palavras como
avião, mas desconhecia
palavras como aeroplano ou
aeronave. Tinha uma letra
linda! Possuía uma
capacidade de cópia
incrível! Aos dezoito
anos, foi desligada da escola,
que por último era
especial, em função
de sua avançada idade.
E
eu, sua irmã que a
percebia como uma pessoa
inteligente, pergunto-me:
Será que enganei-me?
Se não o que foi feito
de sua inteligência
?
Por
Ana Maria Portugal Gomes,
31 anos (Fonoaudióloga).
Tem uma irmã de 30
anos portadora de surdez.
21/10/1997
P.S.:
Relato apresentado na Semana
da Pessoa Portadora de Deficiência,
em agosto de 1996, na APAE
de Pára de Minas (MG)