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" IGNORAR O SURDO É COMO NEUTRALIZAR UMA PLANTA QUE ESTAVA PARA SER ÁRVORE "


VIDA PARA OS SURDOS!

     A língua de sinais é a única que lhes dá a possibilidade de desenvolver a linguagem e uma personalidade sã, defende Carlos Sánchez, médico e pesquisador radicado na Venezuela, onde as escolas públicas de surdos substituíram o oralismo pelo bilingüismo, que os faz chegar à língua escrita pelos sinais. A tentativa de fazer os surdos falarem não deu frutos até hoje, apesar das boas intenções de pessoas sérias ligadas ao oralismo - linha de ensino que tenta desenvolver nos surdos a capacidade de compreender nossa língua oral e se comunicar por ela, criando assim a possibilidade de alfabetizá-los.
     Em maio passado, em São Paulo, no Simpósio Internacional de Língua de Sinais e Educação dos Surdos, promovido pela Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, ficou claro que a mudança no ensino dos surdos interessa a muita gente, inclusive  todos  os  surdos. Fora os especialistas convidados pela Sociedade - brasileiros, americanos, uruguaios, argentinos, venezuelanos e ingleses -, mais de 800 pessoas envolvidas com a questão foram ao Simpósio ouvir o que se pode fazer para melhorar a situação do surdo, marginalizado socialmente e encarado como um indivíduo menos capaz que os ouvintes; Se o oralismo não é a solução para esse problema, outra deve haver. E certamente há.
     A proposta de educação de surdos que surgiu no Simpósio não tenta oralizá-los e possui fundamentos científicos: o bilingüismo. Chama-se assim porque utiliza a língua de sinais - que a ciência comprova ser a língua natural dos surdos, proibida no oralismo - e a língua escrita, encarada como completamente independente da língua oral. Com cerca de 20 mil surdos, a Venezuela é o país onde o bilingüismo está mais adiantado. "Isso porque o implantamos de uma só vez nas nossas 42 escolas publicas de surdos, além de duas das cinco escolas particulares o terem adotado também", comenta Carlos Sánchez, médico uruguaio que se tornou assessor da Secretaria de Educação Especial venezuelana, apaixonou-se pela lingüística e pela questão dos surdos, fez mestrado em Língua Escrita e se bateu pelo fim do oralismo na Venezuela.
     A vantagem do uso da língua de sinais, diz Sánchez, é que só ela é capaz de desenvolver o centro cerebral da linguagem nos surdos, o que significa dar a eles reais possibilidades de desenvolvimento cognitivo, afetivo e emocional - ou seja, torná-los efetivamente pessoas idênticas às ouvintes, só que falando outra língua. Muito bem impressionado com a receptividade no Simpósio às idéias bilingüistas, Carlos Sánchez (CS) conta nesta entrevista a Nova Escola (revista que fez está reportagem em setembro de 1993, vamos denominada como: NE) como se introduz a língua escrita, sem, claro alfabetizar ninguém.
     NE- Como o senhor, que é médico, foi se interessar por lingüística e por surdos?
     CS- Exerci primeiro a psiquiatria. Depois a pediatria, e trabalhei com crianças com os chamados "exercícios de reabilitação das dislexias" e de todas as dis - o que hoje me dá vergonha. Sempre foi uma preocupação minha o problema da linguagem, por uma paixão que tenho pela literatura. Em 1984, já como da Secretaria de Educação Especial venezuelana, tomei contato com as idéias de Emília Ferreiro, cujo trabalho continua, naquela época, ema visão lingüística. Eu decidi investigar como era a leitura em surdos, ou seja, o processo de aquisição da escrita, na escola oralista que tínhamos.
     NE- Os surdos liam bem?
     CS- Nem poderiam, pois os surdos eram ensinados a ler como se ouvissem. Mesmo depois do fracasso na escola, quando começavam a aprender globalmente - ir direto do significante (a palavra escrita) ao significado - , os surdos nunca chegavam a ser usuários constantes e fluentes da língua escrita. Terminado meu trabalho de pesquisa, mostrei-o ao educador francês Jean Foucambert, quando foi à Venezuela, em 1988. Diante daquelas dificuldades dos surdos de ter acesso à escrita, Foucambert me disse: "Não só os surdos, mas toda e qualquer criança pode aprender a língua escrita sem basear-se na oral, porque são independentes. Isso ficará comprovado no dia em que se conseguir fazer os surdos lerem e escreverem bem, pois eles não podem passar pelo oral". Isso foi um tremendo insight (perspicácia, percepção?) para mim!
     NE- E a sua pesquisa foi parar no lixo?
     CS- Claro! Estudávamos um processo de aquisição da escrita pelos surdos que estava totalmente equivocado. Com o oralismo das nossas escolas, eles não possuíam linguagem normal nem um ambiente em que pudessem conversar sobre o que é escrito. Meu trabalho não tinha sentido algum - era como estudar como corre um atleta com pesos nos pés e as mãos amarradas.
     NE- Então vocês perceberam a necessidade de mudar o ensino dos surdos?
     CS- Sim. A lingüística prova que a língua de sinais é a língua natural dos surdos. Então eu conclui: se é uma língua, deve ser usada na educação de surdos. É mais que obvio: se francês é uma língua, deve ser usada pelos franceses, e assim por diante. Por que não, então, usar a língua de sinais com os surdos? Acontece que a tradição oralista, que dominava na Venezuela e domina na maior parte do mundo, proíbe aos surdos o uso da língua de sinais. A proposta que levamos ao Ministério da Educação foi implantar a língua de sinais nas escolas publicas de surdos.
     NE- Qual a reação nas escolas?
     CS- Os argumentos lógicos e comprovados pela lingüística convenceram a todos os envolvidos de que esse era o caminho certo. A partir de 1990, todas as 42 escolas públicas venezuelanas de surdos passaram a ser bilingüistas, ou seja, a usar na educação a língua de sinais e a língua escrita. Os que mais nos criticaram foram os vendedores de aparelhos de surdez, que se tornaram obsoletos com a liberdade dada à língua de sinais. Para desenvolver o bilingüismo, é necessário aceitar que a língua de sinais é uma língua natural e que os surdos são uma comunidade lingüística minoritária.
     NE- Por que a língua de sinais é uma língua natural?
     CS- Por cumprir com uma série de requisitos que todas as línguas naturais possuem - espanhol, português, alemão, inglês, polonês... a criatividade é um deles -, pode-se sempre dizer alguma coisa nova. Outro requisito é a combinação de partículas não significativas que, usadas de certa maneira, criam significação. Eu me refiro aos fonemas da língua oral e às configurações da mão na língua de sinais. Com 30, 40 configurações da mão, podem-se transmitir milhares de sinais significativos, como os fonemas da língua oral. A língua de sinais, que, como as línguas nacionais, é diferente em cada país e até em regiões dos países, possui, além do mais, uma gramática toda própria, organizada e complexa, e nos permite transmitir qualquer coisa.
     NE- Portanto a língua de sinais atinge significados profundos?
     CS- Claro que sim! Com ela, pode-se transmitir, criar e recriar o que se quiser: poesia, romance, filosofia... E pode-se até formular idéias com duplo sentido, ou mentir, que é outra característica das línguas naturais.
     NE- A função das línguas naturais é só a de transmitir e criar idéias?
     CS- A grande função das línguas naturais, ao lado de possibilitar a comunicação, é permitir ao indivíduo desenvolver o instrumento mental chamado linguagem. A linguagem permite o uso da língua, mas só pode se desenvolver com a aquisição de uma língua natural. Desse modo, sem linguagem não há desenvolvimento cognitivo, nem emocional, nem afetivo. Isso se aplica para qualquer ser humano, surdo ou ouvinte. Há uma história clássica, dentre outros exemplos bem documentados, que mostra que sem um ambiente lingüistico a criança não pode desenvolver a linguagem: o rei Psamético, do Egito, queria saber que língua falaria uma criança que não tivesse contato com nenhuma língua. Mandou fechar duas crianças num cubículo, isoladas do mundo exterior, só recendo alimentação por uma abertura na porta. Depois de alguns anos, soltaram os meninos, que, claro, não falavam língua alguma. Eram como bichos. Um experimento terrível, mas muito claro.
     NE- A partir de que idade a criança surda deve ter contato com a língua de sinais?
     CS- Quanto mais cedo melhor. Se uma criança surda só tem contato com os sinais a partir dos 5 anos de idade, é certo que o instrumento cerebral de linguagem já foi afetado, ainda que ela aprenda alguma coisa. É o mesmo que ocorreria com uma criança ouvinte Para os surdos, no entanto, o contato com a língua de sinais é mais difícil, visto que 95% deles, na Venezuela, são filhos de pais ouvintes, que não dominam a língua de sinais e portanto não propiciam ao filho um ambiente lingüistico. E os 5% de pais surdos muitas vezes se recusam a usar sinais, por causa do preconceito difundido pela tradição oralista.
     NE- De que maneira vocês mostram aos pais a necessidade de um filho surdo freqüentar uma escola que não vai fazê-lo falar?
     CS - Deve-se compreender o principal problema dessa questão: quaisquer pais querem os filhos para eles. No entanto, na realidade, o filho surdo pertence a outra comunidade. É uma situação muito peculiar. Quando os pais acabam de receber o diagnostico de que seu filho é surdo, eu digo a eles, com a convicção de que falo a verdade: "Seu filho é normal; pode ser inteligente, criativo. Só que ele fala outra língua; ele é um estrangeiro". Essa realidade dura deve ser dita sem meias-palavras. No oralismo, garantiam aos pais que o filho viria a ser "normal", que viria a falar como a maioria das pessoas - uma grande mentira. Após muitos anos era uma frustração e, pior, a criança não havia tido nenhuma possibilidade de desenvolver a linguagem.
     NE - E o tipo de escola que vocês implantaram dá essa possibilidade?
     CS - Sem dúvida nenhuma. A primeira meta da nossa escola bilingüista é garantir aos surdos o desenvolvimento da linguagem e do cognitivo. Para isso, é necessário que todos na escola usem a língua de sinais, da mesma forma que toda criança ouvinte tem direito a um meio lingüistico rico. Assim, possibilitamos o desenvolvimento afetivo, emocional - o desenvolvimento de uma personalidade sã. Com tudo isso, o surdo pode construir uma teoria sobre o mundo. Veja que uma criança ouvinte é naturalmente dada a oportunidade de pergunta muito, sobre tudo, para formar sua teoria a respeito do mundo. O mesmo deve ser garantido ao surdo.
     NE - Quais são as etapas de evolução de um surdo?
     CS - O processo de desenvolvimento de uma criança surda é exatamente igual ao de uma criança ouvinte. Acredita-se em muitos lugares que o surdo precise de dois anos de uma serie escolar para se equiparar a um ouvinte. Isso é uma insanidade! O surdo tem as mesmas possibilidade que um ouvinte, só que falando em outra língua, a de sinais. Portanto, em primeiro lugar a criança adquire espontaneamente a língua, para desenvolver a linguagem e então Ter acesso à língua escrita, que é uma segunda língua - repito, trata-se ou não de surdos. Jean-Paul Sartre, aquele famoso filosofo francês, tem uma frase ótima a respeito: "Falamos em nossa língua materna, mas escrevemos numa língua estrangeira".
     NE - Como a criança surda pode Ter contato com a língua escrita?
     CS - A língua escrita se adquire da mesma forma que a oral. Emília Ferreiro dizia isso há 10 anos - hoje mudou seu ponto de vista. Se adquire da mesma forma, tem de ser por meio de um processo espontâneo. Eu acredito nisso, assim como, entre outros, Jean Foucambert e o americano Frank Smith. Não é necessário, como imaginam os alfabetizadores, uma racionalização sobre a língua escrita como objeto de conhecimento. A racionalização só ocorre depois que a criança incorporou espontaneamente certa quantidade de convenções da escrita, o que significa sem sistematização. As metodologias dominantes procuram facilitar a reflexão sobre a escrita, mas isso não é uso da escrita. O uso da escrita é inconsciente, no contexto de uma prática social.
     NE - Se a aquisição da escrita depende da prática social, a criança deve viver num meio que a utilize sempre?
     CS - Nem sempre, mas significativamente. Um exemplo seria o pai, em casa, comentar com a mulher sobre um livro que leu. Esse é um ato de leitura, de uso da escrita. Não é mensurável quando a criança, ao escutar essa conversa, adquire da língua escrita, mas é certo que adquire, da mesma forma que a oral. Ao se comentar o conteúdo de um livro, usa-se uma gramática distinta, e a criança assimila as convenções da escrita que transparecem nessa gramática especial. O conhecimento intuitivo dessas normas e convenções é o primeiro componente para o uso eficiente da língua escrita. O segundo é a criança saber o que dizem os livros a respeito dos temas que serão lidos.
     NE - Como assim?
     CS - Por exemplo: se a criança quer entender, ler bem um conto de fadas, ela precisa saber o que dizem os livros sobre as fadas, porque ninguém fala de fadas corriqueiramente. A escola deve dar esse conhecimento prévio sobre o tema codificado na escrita, abordando temas que só se encontram escritos - fadas, seres mitológicos, um circo romano, etc. Ao fazer isso, a escola estará despertando o interesse da criança para a língua escrita.
     NE - Como a criança vai decifrar o que está impresso num livro?
     CS - Ela tem de saber que naquela parte do livro está escrito, por exemplo, "chovia demais". Alguém já leu para ela esse trecho, que também diz que "chovia de noite". A criança percorre o livro com os olhos e encontra essas duas formas iguais, "chovia". Só que numa ela vê "de noite", e noutra, "demais". Esse é o mecanismo, multiplicado por milhares de vezes que ela tenha contato com a língua escrita, veiculada pela oral ou gestual e impressa. Assim como a aquisição das palavras e do sentido em língua oral. Durante muitos anos, até 7, 8 anos de idade, a criança, não lê para inteirar-se de mensagens novas, mas sim para comprovar o que já sabe. Se a criança é obrigada antes disso a ler, ela vai letra por letra - como na alfabetização -, sem internalizar conhecimento, sem apreensão de sentido.
     NE - Quando ela formará sentido a partir do que está escrito?
     CS - Quando possuir um estoque suficiente de palavras reconhecíveis. É como ocorre com os japoneses e chineses, que começam a Ter condições de ler bem ao reconhecer, digamos, 5 mil ideogramas. Fazendo um paralelo, na nossa língua escrita as palavras assumiram o aspecto de um ideograma, transmitindo imediatamente a idéia, o significado. Como diz Sartre, assimilar a língua escrita é o mesmo que aprender uma língua estrangeira. Vai-se descobrindo pelo contexto.
     NE - É isso que vocês fazem em suas escolas?
     CS - Exatamente isso. Usamos muito a escrita, procurando dar à criança surda as mesmas oportunidades que tem a ouvinte, de modo que se interesse pelo escrito, veja que possui significação. Aquele mesmo processo a que me referi, de dizer o escrito com uma gramática toda própria, só que com a língua de sinais. Ainda não tivemos tempo, no entanto, de levar os surdos a ler corretamente. Para adquirir espontaneamente a língua escrita, é preciso que os pais, a família, o meio - escola inclusive - falem da língua escrita. Nós ainda não temos surdos que falem disso. Apesar de alguns pais utilizarem a língua escrita, a maioria deles desconhece a língua de sinais. Temos de dar tempo para que se crie um meio social com uso significativo da língua escrita.
     NE - Vocês seguem alguma metodologia?
     CS - Não. A idéia geral é promover atividades em espaços que convidam à participação. Temos, claro, teóricos que admiramos, como Foucambert, Célestin Freinet e o venezuelano Simón Rodríguez. Somos criticados por gente que quer saber qual é o programa, qual a metodologia... Acredito que, atualmente qualquer intenção pedagógica viria a ser muito extremista - toda intenção pedagógica dos ouvintes é colonizadora. A meta principal da escola bilingüista é, neste momento, propiciar o desenvolvimento da linguagem, sem freios ao uso da língua de sinais.
     NE - Quais são as atividades que o senhor mencionou?
    CS - São cinco as áreas de atividades, das quais participam crianças, jovens e adultos, de modo a se reproduzir o ambiente familiar: jogos e esportes; teatro; ciências; leitura e escrita; e trabalho. A criança surda, no oralismo, não sabia brincar com jogos e brinquedos de criança! Não codificava, também, em passear com amigos. Faltava, evidentemente, o pensamento abstrato, Em ciências desenvolvemos vários projetos, como criação de galinhas, agronomia, sempre com a participação de pais ligados a cada assunto. Na área de trabalho são produzidos objetivos competitivos no mercado, como objetos artísticos.
     NE - Qual a função do professor?
     CS - A função do professor passou a ser a de colaborar e participar nas atividades escolares. Custou convencê-los de que eles não dariam mais aulas o tempo todo. Em cinco horas de atividades diárias, uma é utilizada pelo professor para ampliar o conhecimento dos alunos, nas varias disciplinas. Ainda assim, na medida do possível essa informação adicional se relaciona ao que foi trabalhado na prática, porque daí surge a internalização de conhecimento. Não é fácil, pois isso exige um professor bem-informado e bem-integrado.
     NE - Qual a formação dos professores?
     CS - De três anos para cá, todo professor primário venezuelano precisa Ter formação universitária. Todas as escolas de formação de professores de surdos, após a universidade, são oralistas. Nossos professores, todos ouvintes, são obrigados, pois, a aprender a língua de sinais com os surdos.
     NE - Essa escola só para surdos não contraria o princípio da integração deles com ouvintes?
     CS - A integração a que você se refere, lamentavelmente determinada pela Constituição Brasileira, faz parte do oralismo. Na verdade, é uma desintegração, porque o surdo é totalmente marginalizado entre ouvintes. Eles não tem com quem falar. Há poucos anos, dois oralistas espanhóis estiveram na Venezuela, defendendo a presença de apenas uma criança surda numa classe regular de ouvintes, porque, se duas estivessem juntas, já falariam com sinais. Esse é o temor tremendo de que os surdos acabem como num gueto.
     NE - Mas uma escola só de surdos não soa como segregação?
     CS - Não haverá isolamento se o surdo encontrar em sua comunidade o que necessita. Conviver na própria comunidade é a única saída. Em São Paulo, por exemplo, onde deve haver pelo menos 16 mil surdos, tem de ser possível para um surdo encontrar amigos e tudo mais. Se tiverem acesso a língua escrita, será muito mais interessante. E, se puderem se tornar psicólogos, médicos, jornalistas, escritores, poderão ter horizontes ainda mais amplos, o que não os obrigaria a buscar amigos na comunidade ouvinte. Além disso, há o fato de que a comunidade de surdos nunca é fechada, justamente porque a maioria deles não é filho ou filha de surdos, e os filhos de surdos não são surdos. É uma questão provocante, que muda a noção de integração.
     NE - E o que é integração?
     CS - Para mim, a integração tem dois componentes indispensáveis: primeiro, a interação plena - poder falar o que se queira com varias pessoas; segundo, o poder para tomar decisões. A criança surda colocada numa escola regular não tem interação real e nenhuma possibilidade de tomar decisões. Na nossa escola, tentamos garantir esses dois componentes, porque ela é democrática (o professor deixa de ser o que manda); participativa (por incorporar os pais dos alunos), comunitária (é da comunidade de surdos), e ativa (porque ao se fazer coisas é que se aprende). O processo que implantamos pode ser demorado, de mais de uma geração, mas é fundamental para que os surdos possam criar coisas novas, deles.
     NE - O primordial é dar vida aos surdos?
     CS - É exatamente isso! Hoje, as crianças e adolescentes surdos demonstram que querem saber mais. Têm a expectativa de se tornar o que os surdos nunca pensaram ser: professores, médicos, psicólogos, lingüistas - eles têm um interesse enorme por lingüística. Os surdos que estão terminando o ensino secundário escrevem muito, ainda com dificuldade, mas percebem a escrita como um instrumento acessível. E notam também que o encaminhamento, agora, é o correto, pois sabem que não vão ficar na escola anos a fio, ou dois anos por um, e que não vão fracassar.
Preconceito contra os "diferentes"
     Assim que a humanidade nasceu, muitos homens ouviam e alguns não ouviam. Todos, no entanto, criaram uma língua própria para a região que habitavam. Para uns, a comunicação se fazia pela boca, por sons; para outros, pelas mãos e pela expressão do rosto. Os surdos puderam usar língua de sinais até o século XIX, não sem enfrentar preconceitos aqui e ali. Mas a usavam.
     Em suas escolas, a comunicação era só gestual. Eles chegaram até a formar comunidades leitoras, sem a necessidade de aprenderem a língua oral para entender a escrita. Aos poucos, porém, foi ganhando espaço a linha oralista, que surgiu no século XVIII da cabeça de um militar alemão chamado Samuel Heinnicke. Seus seguidores proliferaram mundo afora. Baseados na máxima de que "sem palavra não há humanidade", eles conseguiram em 1880, no Congresso de Milão sobre Educação de Surdos, proibir o uso da língua de sinais no ensino - uma decisão com força de lei que logo se espalhou pela Europa e pelas Américas.
     Teorias cientificas, como a da "seleção natural das espécies", contribuíram para que os surdos fossem estigmatizados socialmente. "Pensava-se que os surdos, por usarem uma língua diferente e casarem-se entre si, iriam criar uma 'subespécie' degenerada da raça humana'. - um qualificativo cunhado por Alexandre Graham Bell, o inventor do telefone, cuja mulher, aliás, era surda", conta Carlos Sánchez.
     Em seu livro A Incrível e Triste História da Surdez, Sánchez revela numa pesquisa minuciosa e muito bem relatada toda a trajetória dos surdos através da História. "O que ocorreu, com a implantação do oralismo, foi realmente um genocídio. Os surdos perderam a capacidade de linguagem, de raciocínio, de pensamento abstrato. Passaram a ser nulos intelectualmente na sociedade", disse Sánchez a Nova Escola. "Era o medo do diferente que esses reacionários oralistas difundiram. A idéia era fazer com que a surdez se tornasse invisível na sociedade, que os surdos sem usar sinais, parecessem 'seres normais".
     "A filosofia que guiava os oralistas era a da eugenia, ou seja, a idéia de que existiam condições propicias para o "melhoramento" da raça humana. A mesma idéia que foi uma das molas mestras do nazismo de Adolf Hitler. A irracionalidade do oralismo chegou a extremos inacreditáveis, conta Sánchez, e levou na onda a medicina, a psicologia e ramos correlatos.
     "O treinamento auditivo de surdos não tem o mínimo sentido, porque surdo não se treina. É uma visão: ou se enxerga ou não se enxerga. E manuais de psicologia, de duas décadas atrás, ainda definiam o surdo como indivíduo incapaz de pensamento abstrato!", indigna-se o médico e pesquisador uruguaio. Quando o oralismo ainda imperava na Venezuela, toda escola de surdos tinha em sua classe um cartaz com a figura de um macaco.
     Assim que uma criança esboçasse falar com sinais, a professora a mandava sentar-se sob o cartaz, acusando-o: "Você é um macaco!" A primeira providência pedagógica que a Secretária de Educação Especial venezuelana tomou, ao varrer o oralismo das escolas públicas, foi promover um enterro simbólico do macaco. "Foi lindo!", recorda Sánchez. "Todos os envolvidos na mudança, surdos e ouvintes, nos emocionamos muito com a implantação do bilingüismo. Choramos, dançamos, nos abraçamos. Uma festa e uma conquista memoráveis."
Uma pá de cal sobre o oralismo
     "Chegada de oralização! Estamos criando nossas crianças surdas como meninos-lobo", critica Norberto Rodrigues, médico neurologista presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, organizadora do Simpósio Internacional de Língua de Sinais e Educação de Surdos.
     Norberto usa essa imagem forte com absoluto conhecimento de causa: na Sociedade e em dois núcleos de pesquisa - um na Universidade de São Paulo (USP) e outra na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) -, ele desenvolve pesquisas exatamente sobre as relações entre o cérebro e as funções cognitivas humanas e ainda atende, em seu consultório, crianças com problemas cognição. "Os estudos lingüisticos e neurológicos são irrefutáveis e contundentes no sentido de provar que a organização celebral da linguagem, quer oral, quer gestual, é exatamente a mesma.
     As evidências são de tal ordem que só um preconceito insano justifica a insistência na oralização de crianças surdas." Formado, mestrado e doutorado pela USP, com um estágio de pesquisa em neurolingüística na Universidade de Bruxelas e depois de vários anos de trabalho no Instituto Pestalozzi e na Divisão de Ensino e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação (Derdic, da PUC). Norberto chegou às seguintes conclusões: "Se a língua de sinais é organizada no cérebro da mesma forma que a língua oral, então, do ponto de vista biológico, a língua de sinais é uma língua natural, o seu aprendizado tem um período crítico.
     E, se tem um período crítico, então as crianças surdas estão iniciando muito tarde o seu aprendizado", afirma o neurologista com um raciocínio claro e lógico. Ele situa este período critico de 2 para 3 anos de idade. "Depois começa a dar encrenca". A insistência na oralização tem resultados desastrosos: "A criança surda não se oraliza e se cria um menino-lobo mesmo, com graves dificuldades psicológicas, de personalidade e de caráter, e cognitivas, porque ninguém nasce pronto e ninguém consegue se formar sem linguagem", adverte Norberto.
     O presidente da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia condena também a insistência em definir o surdo como deficiente auditivo. "Essa discussão é uma grande bobagem. Se quiserem chamar o surdo de deficiente auditivo, que chamem. O fato é que o indivíduo surdo tem uma língua, uma cultura e pode ser um cidadão tão útil quanto outro qualquer , desde que lhe sejam dadas as condições de se desenvolver e se comunicar através de uma língua organizada e natural, que é a de sinais."
     A escola, na opinião de Norberto Rodrigues, tem papel predominante na formação afetiva, emocional e cognitiva do surdo, usando a língua de sinais. "Está certo todo o pessoal que insiste em que a escola para surdos deve ser desde a infância até a faculdade. Só assim se vai poder colocar os surdos em pé de igualdade com ouvintes cultos."

(Reportagem feita pela revista Nova Escola de setembro de 1993, por Carlos Mendes Rosa)

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