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" IGNORAR O SURDO É COMO NEUTRALIZAR UMA PLANTA QUE ESTAVA PARA SER ÁRVORE "


BILINGÜISMO E INCLUSÃO
Por: Andreia Lage Fonseca (Fonoaudióloga)


      A criança Surda deve ter o direito de adquirir linguagem de uma forma natural e não forçada por meio de uma língua que forneça todos os subsídios necessários para que ela forme seus pensamentos, perceba o mundo a sua volta e crie sua própria linha de raciocínio de maneira mais breve possível. É importante dizer que a língua natural também subsidiará todos seus relacionamentos, é por meio dela que a criança Surda expressará seus sentimentos diversos e entrará em contato com os outros indivíduos da sociedade na qual esta inserida, tanto quanto uma criança ouvinte realiza com sua língua materna.

      A língua materna é a língua de berço, ou seja, falada pela família e aprendida por meio desta. E a língua natural é uma língua que forneça uma aprendizagem pelo o convívio e não por um ensinamento formal. A simples exposição de uma criança ouvinte ao português falado permite a interiorização da linguagem e da gramática da língua ouvida, porém, o mesmo não acontece com a criança Surda, a língua falada necessitará ser ensinada sistematicamente. Quando essa mesma criança Surda for exposta à língua de sinais o aprendizado não necessitará de uma intervenção direta. A grande questão é que a criança Surda muitas vezes nasce numa família ouvinte e a língua de sinais não pode ser aprendida como língua materna. Para que a criança seja bilíngüe a família tem que aceitar, estar disposta e, além disso, tem que se empenhar no aprendizado da língua de sinais.

     Não há melhor forma de aprender uma língua do que conviver com a comunidade que fala essa língua e aprender sua cultura. (Toda língua é fundamentada por uma cultura sustentada por uma comunidade). A Comunidade Surda oferece curso de LIBRAS gratuito para pais e para as crianças Surdas. É muito importante para a família da criança Surda esse convívio, pois ali dentro da comunidade ela poderá perceber quais são os obstáculos vividos e vencidos, a família ganhará conhecimento das causas defendidas por aquelas pessoas que lutam por um mundo menos subestimador de suas verdadeiras capacidades.

     A alfabetização e o ensino da criança Surda também é um outro desafio vivido por essa família. Hoje temos opções de escolas especiais ou de escolas regulares com auxílio de interpretes, porém ambas são despreparadas para receber a criança Surda. Não há uma qualificação dos professores e nem dos funcionários das escolas. Muitas vezes a própria língua dos Surdos é desrespeitada, eles não vêem a criança como bilíngüe e dificultam o processo de aprendizagem. O aluno Surdo quando entra na escola não tem domínio total da sua segunda língua (o português) e sua aprendizagem deveria ser facilitada pela alfabetização já que a escrita auxilia o treino fonético (a fala), e não dificultado devido a falta de domínio da língua de sinais por parte dos professores e até mesmo dos intérpretes.

     É importante diferenciar os papeis de cada profissional envolvido com a criança Surda. À escola e aos educadores pertence a responsabilidade da alfabetização e do ensino acadêmico. Cabe ao fonoaudiólogo o treino de fala e quando necessário um apoio especial à linguagem. É claro que o treino de fala e de leitura labial deverá respeitar a motivação da criança e o interesse da família. Não adianta tentar forçar uma criança Surda a falar sem que essa perceba o real sentido da língua falada, e principalmente o seu importante papel dentro da sociedade.

     Muitas pessoas possuem um preconceito muito grande com o Surdo sinalizado, elas acreditam que essa criança não vai desenvolver um interesse pela fala. Ou dizem que esse Surdo vai se isolar dentro da sua comunidade Surda e deixará de participar da sociedade ouvinte. Porém é difícil pensar em inclusão quando a sociedade é fechada para receber o diferente. Não é incomum o interesse das pessoas em normalizar, como se fosse possível padronizar todo mundo. É interessante como o Surdo, o cego e qualquer outro deficiente tem que se adaptar a vida em sociedade. O primeiro passo deve ser sempre deles. Por quê? Será que a inclusão pregada hoje em várias instituições é mesmo real? A inclusão é forçar o outro a participar e a se interessar por aquilo que queremos?

     Quando eu penso em inclusão, penso antes em mudar meu ponto de vista quanto àquilo que é necessário e aquilo que pode não ser. Inclusão é aceitar e respeitar as diferenças, entendo que: o que é importante pra mim pode não ser para o outro e vice-versa. Inclusão é oferecer outras formas de atingir o mesmo objetivo, inclusão é não tratar com diferença, e sim oferecer as mesmas oportunidades para todos.

     Se eu aceito uma criança bilíngüe e dou a ela a oportunidade de se expressar na língua que ela tem domínio e tento conciliar com sua outra língua para que ela desenvolva seu vocabulário e sua segurança, estou falando em inclusão. Se eu ensino algo novo na língua mais fácil para a criança e transporto para sua segunda língua estou promovendo seu raciocínio e interpretação nas duas línguas. Se promovo um balanceio entre as duas línguas promovo um aprendizado prazeroso à criança Surda e posso até variar o grau de dificuldade que esta não sentirá um fardo ao aprender e desenvolver as duas línguas.

     Hoje a sociedade tem uma idéia errada de inclusão. Acredita-se que inclusão é colocar a criança deficiente numa escola regular, é falar que essas pessoas têm o direito de ir a todos os lugares, mas raramente se fala em preparar esses locais para receber os deficientes. A questão não é só social, é político também. O sistema educacional no Brasil é ruim até mesmo para as crianças sem dificuldades, quem dirá para as que são deficientes. O despreparo é geral e enquanto o governo não subsidiar um treinamento específico para os educadores fica muito restrito o termo inclusão. Enquanto não se fazer cumprir as leis de inclusão, não é possível mudar as mentes preconceituosas da sociedade.

     Fica guardada dentro do peito a esperança de ver o Bilingüismo ser uma realidade na minha cidade, ou melhor, no meu país. Ainda virão dias onde as pessoas não precisem mostrar o que têm e sim o que são!

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