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Entendendo a linguagem do Surdo...

    A audição é nosso principal sentido receptor. É por meio da audição que podemos perceber o mundo a nossa volta. E a partir dos barulhos que ouvimos e das observações dos fenômenos ocorridos atribuímos significado a cada um deles. Esse é o inicio da aquisição e do desenvolvimento da linguagem.
É ouvindo que entramos em contato com o universo das palavras, da fala, do outro. Ouvindo nossos pais e familiares conversando, aprendemos o código oral que passaremos utilizar por toda nossa vida nos momentos comunicativos.
    Porém, há um grupo de pessoas que nascem com alterações no sistema auditivo, privando-os da audição. E aí? Como fica o processo de aquisição de linguagem dessa pessoa? A criança surda consegue fazer os links do mundo a sua volta da mesma forma que a criança ouvinte? O surdo possui as mesmas condições de recepção de informações? É possível que uma criança surda estude numa escola regular? Estas são perguntas pertinentes, que tentarei responder por meio desse artigo.
Sem a audição e a fala fica complicada a comunicação, e entender o outro muitas vezes é sofrido. A partir do momento que não há audição, a principal recepção de informações se desloca para outro sentido muito importante: a visão. É a observação visual daquilo que acontece que promove algum significado do que está no entorno do observador. Os movimentos, as expressões faciais, o uso dos objetos são aprendidos também, pelo simples fato de observar o outro. Mas a língua oral, não pode ser aprendida com facilidade.
    Quando pensamos nas crianças ouvintes, além da audição, a visão também se faz presente, complementando os significados do mundo. Ou seja, o processo de aquisição de linguagem traz os dois sentidos andando em conjunto. Agora, com apenas a visão, há um grande déficit de informações colhidas, e um difícil processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem.
    Se a recepção das informações da criança surda se dá de forma visual, e sendo o principal déficit a comunicação, naturalmente, faz-se necessária uma língua que abranja o campo visual em sua essência. Uma língua que supra toda necessidade de compreensão do outro, de comunicação. Uma língua capaz de expressar sentimentos e vontades... capaz de integrar o individuo na sociedade.
    A Língua de Sinais é a língua que cinge todos esses parâmetros e necessidades. Como língua possui vida e movimento sustentados pela comunidade de que a utiliza, de acordo com sua própria cultura. Diferentemente do que a maior parte das pessoas pensa, a língua de sinais é única em cada país: assim como falamos português no Brasil e inglês nos Estados Unidos, há a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) e a ASL (American Singn Language). Sem uma língua, sem a comunicação as crianças tendem a se tornarem agitadas e agressivas por não conseguirem se expressar.
    Enfrentamos outro problema, a Língua de Sinais não é uma língua tão divulgada na sociedade ouvinte, poucas pessoas têm acesso a ela, e a maior parte dos surdos nasce em famílias ouvintes, falantes apenas da língua oral. Raramente o diagnóstico de surdez se dá no primeiro ano de vida. São necessárias maiores políticas públicas no diagnóstico precoce da surdez. E, muitas vezes, a criança surda passa sua primeira infância sem comunicação, sem contato com uma língua eficaz.
    Quando pensamos na criança ouvinte, esta possui a audição desde o útero da mãe. Desde antes do nascimento esse contato forma elos, e como vimos, nos primeiros anos de vida abrem o leque de um universo cheio de significados.
    A família ouvinte em que há uma criança surda precisará aprender uma nova língua. Será necessário esforço e dedicação, mas o bom desenvolvimento da criança será a grande recompensa. Pais e filho deverão aprender a língua simultaneamente, e por que não, em conjunto, freqüentando locais onde a língua é falada em sua predominância. Assim o surdo terá acesso a todos os conceitos necessários à sua formação. A alfabetização se dará num processo seguinte com o aprendizado do português escrito. A partir do momento que se despertar na criança o interesse pelo português falado, este também será aprendido.
    Na escola é comum o surdo ter alguma dificuldade na alfabetização e na construção do português. O surdo não é falante dessa língua e como a LIBRAS é estruturalmente diferente, tropeços na sintaxe e na gramática são comuns. Precisamos pensar que o português é a segunda língua do surdo, ou seja, assim como a família que aprende LIBRAS é uma família bilíngüe, o surdo que aprende o português também será bilíngüe.
    O processo de aprendizado do português se dá de forma semelhante às outras crianças, porém com algumas diferenças. E uma forma de facilitar é ter em mãos um dicionário ilustrado. E porque não montar um com a criança? Após o aumento do vocabulário em português, é preciso ensinar outras estruturas da língua, como os artigos e as conjugações dos verbos, e então, preposições, conjunções e demais elementos. A criança a inicio escreverá de uma forma bem semelhante à Língua de Sinais, mas com o tempo, e com a fixação das estruturas do português, a criança começa a adquirir de forma adequada essa língua. A criança surda pode e deve freqüentar uma escola regular que seja apta para auxiliá-lo e compreendê-lo, além do mais, o convívio com outras crianças é muito importante. Para que esse processo se dê eficazmente, faz se necessário o acompanhamento fonoaudiológico desde o inicio do processo. Um fonoaudiólogo capacitado para trabalhar com uma criança surda lhe trará grande evolução e independência.
    Podemos perceber que a linguagem dos surdos se diferencia em alguns aspectos, mas que a criança surda, bem acompanhada, pode participar de todos os eventos e freqüentar todos os locais normalmente. O surdo é capaz, como qualquer outra pessoa, de se expressar e se fazer entender.

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